Língua & Literatura

O blog Língua & Literatura foi criado para a disciplina Projetos Experimentais como requisito parcial para a obtenção de grau em bacharel em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, pela Escola de Comunicação Social (Ecos) da Universidade Católica de Pelotas (UCPel). O objetivo é publicar resumos, análises e sínteses literárias, além de estudos de filologia e lingüística como forma de colaboração e apoio às pesquisas escolares e acadêmicas.

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quinta-feira, maio 25, 2006

Lucíola - José de Alencar


O romance Lucíola, lançado em 1862, durante a escola literária denominada Romantismo, traz a história de Maria da Glória, forçada a prostituir-se para salvar a vida de sua família, dizimada pela febre amarela. Adota, então, o nome Lúcia, e torna-se uma das mais cobiçadas cortesãs do Rio de Janeiro.

Paulo, um jovem bacharel pernambucano, apaixona-se por Lúcia. Apesar da condição de prostituta, ele se dispõe a assumi-la como mulher. O romance é alvo de comentários na corte e o relacionamento entre ambos torna-se muito difícil: o olhar da sociedade os inculpa. Mesmo com os momentos de autodestruição de Lúcia e a vontade que Paulo tem de renunciar ao seu amor, os dois acabam indo morar num sítio fora da cidade. Quando a união dos dois parece se sacramentar, Lúcia morre. Antes, porém, ela encaminha sua irmã mais nova para uma vida diferente da sua, sob a proteção de Paulo.A narração do romance é conduzida por Paulo, de forma que a história é contada de sua perspectiva. Apesar do livro girar em torno de uma prostituta, "Lucíola" é um romance extremamente moralista e moralizante. O livro dissocia radicalmente o amor físico e o amor espiritual.


Quando Lúcia se apaixona por Paulo, começa a afastar-se de sua vida de prostituição e, mais do que isso, começa a abster-se de qualquer relação sexual. Inicialmente, recusa seus fregueses habituais. Posteriormente, conforme aumenta o amor dos dois, a relação entre ambos torna-se platônica, o que simbolicamente abre caminho para a "purificação" da moça. Essa purificação, porém, não é suficiente para que a sociedade a perdoe.
A culpa a impede de casar-se com Paulo, e ela e o filho que tiveram morrerão ao fim do romance. Todavia, o processo de purificação vai tão longe que, no final, Paulo diz textualmente que possui a alma de Lúcia: "Há seis anos que ela me deixou; mas eu recebi sua alma, que me acompanhará eternamente".


Lucíola é um dos mais curiosos trabalhos do cearense José de Alencar (1829-1877). Há nele um clima de sensualidade constante combinado com o ardor e sofrimento, bem no clima da literatura romântica que predominava na segunda metade do século XIX, quando foi escrito o romance.
É um romance narrado em primeira pessoa, ou seja, a narração é feita por meio de um personagem que viveu os episódios. No caso, esse personagem narrador é Paulo, que em cartas dirigidas a uma senhora conta uma história de amor acontecida há seis anos entre ele e Lúcia. A senhora reuniu as cartas e delas fez um livro, ao qual intitulou Lucíola: "Eis o destino que lhes dou; quanto ao título, não me foi difícil achar... lembrou-me o nome de um inseto. Lucíola é o lampiro noturno que brilha de uma luz tão viva no seio da treva e à beira dos charcos. Não será a imagem verdadeira da mulher que no abismo da perdição conserva a pureza d'alma?".


Na estrutura narrativa, portanto, pode-se observar o seguinte:
a) há um autor real, José de Alencar;
b) um autor fictício, a senhora G.M., destinatária das cartas de Paulo;
c) um narrador, Paulo, com a incumbência e o privilégio de ordenar os fatos, comentá-los e tirar-lhes conclusões. À medida que transmite os fatos, vai fornecendo ao leitor elementos para análise de Lúcia e dele mesmo.


O romance conta com todos os ingredientes de um romance romântico: heróis e vilões, heroínas incompreendidas, virgens pálidas e meigas e cortesãs depravadas, além da morte como a única saída para um amor verdadeiro, porém, impossível.
Numa leitura atenta, o leitor percebe no livro que a época retratada é o Rio de Janeiro do período de D. Pedro II, com seus salões e sua burguesia. Há referências de seus bairros, ruas, população, festas e teatros. Como o próprio narrador anuncia: "A primeira vez que vim ao Rio de Janeiro foi em 1855".
O tempo narrativo é iminentemente cronológico. Os acontecimentos se sucedem numa ordem quase normal - horas, dias, meses e anos. No entanto, há um momento em que o fluxo narrativo retroage: quando Lúcia narra a Paulo seu passado, e em dois momentos ele avança, revelando o estado de alma de Paulo seis anos após a morte de Lúcia.
Lucíola é classificado dentro dos romances de "perfis femininos" de José de Alencar, autor cuja obra abrange os grandes temas de nossa literatura romântica, incorporando todos os aspectos da realidade brasileira de seu tempo, como podem ser observados no romance.
por Hamilton Freitas