Língua & Literatura

O blog Língua & Literatura foi criado para a disciplina Projetos Experimentais como requisito parcial para a obtenção de grau em bacharel em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, pela Escola de Comunicação Social (Ecos) da Universidade Católica de Pelotas (UCPel). O objetivo é publicar resumos, análises e sínteses literárias, além de estudos de filologia e lingüística como forma de colaboração e apoio às pesquisas escolares e acadêmicas.

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sexta-feira, maio 26, 2006

Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto




O sonho de um patriota exaltado


O romance narra a vida de Policarpo Quaresma, um modesto funcionário público que, em seu idealismo patriótico, vê o Brasil como um recanto de farturas, facilidades e amor. Isso orienta seu projeto de reforma nacional, visando a "despertar a pátria do sono inconsciente em que jazia, ignorante de seu potencial, e conduzi-la ao merecido lugar de maior nação do mundo".
Sonhador e ingênuo, Policarpo dedica a vida a estudar as riquezas do país: a cultura popular, a fauna, a flora, os rios etc. Sua primeira decepção se dá quando sugere a substituição do português, como língua oficial, pelo tupi. O resultado é sua internação em um hospício. Aposentado, dedica-se à agricultura no sítio Sossego, acreditando na fertilidade do solo brasileiro. Contudo, depara-se com problemas como a esterilidade do solo, o ataque das saúvas, a falta de apoio ao pequeno agricultor, uma realidade que até então lhe era desconhecida.


Finalmente, com a eclosão da Revolta da Armada, no Rio de Janeiro, Quaresma apóia o então presidente, Marechal Floriano Peixoto, e como voluntário participa do conflito. Assumindo o cargo de carcereiro, critica as injustiças praticadas contra os prisioneiros. Como conseqüência, é preso e condenado ao fuzilamento por ordem do próprio Floriano, seu ídolo.
Além da descrição política do país nesse início da república, a obra traça um rico painel social e humano dos subúrbios cariocas na virada do século. Aposentados, profissionais liberais, moças casadoiras, carreiristas, músicos, donas de casa, o mulato - esse é o universo retratado por Lima Barreto em Triste Fim... Destacam-se, nesse conjunto, as personagens Ismênia, moça formada para o casamento que enlouquece quando abandonada pelo noivo; Olga, sobrinha de Policarpo, que difere da maioria das mulheres por ser mais independente; e o violonista e cantor de modinhas, amigo de Policarpo, Ricardo Coração-dos-outros.


Caminhada ufanista

Publicado em folhetim em 1911, e em livro em 1915, Triste Fim de Policarpo Quaresma é um dos grandes herdeiros do Naturalismo. O romance disseca o sonho de um patriota exaltado, ao mesmo tempo em que apresenta uma sátira impiedosa e bem-humorada do Brasil. A narrativa desenvolve-se no Rio de Janeiro, fazendo aparecer o Arsenal da Marinha (instituição), o Major Policarpo Quaresma (funcionário público) e personalidades da vida política, como é o caso de Floriano Peixoto. A leitura revela que a obra, narrada em terceira pessoa, divide-se em três diferentes fases. A primeira parte retrata o cotidiano simples e suburbano do funcionário público ufanista e sonhador, que pretende instaurar no país uma reforma cultural; já a segunda parte refere-se a Quaresma, que, ao sair do hospício, torna-se proprietário rural; e num terceiro momento, ocorre o estágio final do romance, no qual o protagonista apresenta-se como soldado voluntário na Revolta da Armada, de 1893, revelando o clima político da República Velha.
Ao fim dessa caminhada ufanista, o país revela-se inóspito, precário, infecundo, cruel, opressor e odioso. A narrativa desconstrói o mito romântico de um Brasil superior. Evidencia a distância entre o sonho e a realidade; critica o idealismo inconseqüente, incapaz de enxergar as verdadeiras dimensões do real.

O autor - Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) era mestiço, de origem humilde, nascido no Rio de Janeiro, em 1881. Dedicou-se de uma forma polêmica ao jornalismo e à literatura de crítica social. Seu pai foi considerado louco e ele próprio esteve internado em casa de desajustados mentais. A vida boêmia e o alcoolismo parecem não ter prejudicado seu trabalho intelectual, mas o levaram à morte prematura, em 1922.
A principal contribuição de Lima Barreto para a literatura contemporânea consiste no abandono do modo artificial e erudito de escrever - dominante em seu tempo e característico do período literário chamado Pré-Modernismo. Adotou na obra e em seus demais romances a informalidade estilística própria do jornalismo e da fala cotidiana. Soube registrar com minúcia muitos aspectos da vida social e política do Rio de Janeiro no tempo da Primeira República. Partilhava da idéia de que a literatura devia expressar diretamente os sentimentos e idéias pessoais do escritor. Por isso, quase todos os seus romances possuem lances autobiográficos.


por Hamilton Freitas

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