Língua & Literatura

O blog Língua & Literatura foi criado para a disciplina Projetos Experimentais como requisito parcial para a obtenção de grau em bacharel em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, pela Escola de Comunicação Social (Ecos) da Universidade Católica de Pelotas (UCPel). O objetivo é publicar resumos, análises e sínteses literárias, além de estudos de filologia e lingüística como forma de colaboração e apoio às pesquisas escolares e acadêmicas.

Minha foto
Nome:
Local: Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brazil

sexta-feira, maio 26, 2006

Macunaíma - Mário de Andrade


Lendas, provérbios e outros fragmentos da cultura popular

Publicado em 1928, numa tiragem de apenas oitocentos exemplares (Mário de Andrade não conseguira editor), Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, é uma das obras pilares da cultura brasileira. Ela foi classificada pelo autor não como romance, mas como rapsódia. Como nas rapsódias musicais, que se utilizam de colagens de elementos extraídos de cantos populares tradicionais, a obra resulta da utilização de lendas, ditos provérbios e máximas, em resumo, fragmentos da cultura popular, reunidos em torno do personagem central - Macunaíma.
Através de uma narrativa fantástica e picaresca, ou, melhor dizendo, "malandra", herdeira direta das Memórias de um Sargento de Milícias (1852), de Manuel Antônio de Almeida, Mário de Andrade reelabora literariamente temas de mitologia indígena e visões folclóricas da Amazônia e do resto do país, fundando uma nova linguagem literária brasileira.
A narrativa pode ser assim resumida: Macunaíma nasce sem pai, na tribo dos índios Tapanhumas, às margens do rio Uraricoera. Morta a mãe, Macunaíma e os irmãos partem em busca da aventura. Do encontro com as Amazonas resulta o casamento de Macunaíma com Ci, a mãe do mato. Ci gera um menino que morre e se transforma na planta do guaraná. Pouco depois, sentindo que vai morrer de desgosto, Ci dá a Macunaíma um amuleto, a pedra muiraquitã. Ci morre pouco depois, transformada em estrela - a beta do Centauro.
O amuleto, que o herói tinha perdido, reaparece nas mãos de Venceslau Pietro Pietra, mascate peruano que morava em São Paulo e que na verdade é Piaimã, o gigante antropófago. Um passarinho dá notícias do amuleto a Macunaíma. Acompanhado dos irmãos Jiguê e Maanage, Macunaíma desce o rio Araguaia, a caminho de São Paulo, visando a recuperar seu amuleto. Após inúmeras aventuras em sua caminhada, o herói recupera o amuleto, matando Piaimã. Logo em seguida, a pedra desaparece novamente. Perseguido pelo minhocão Oibê, Macunaíma percorre todo o Brasil e volta para o Amazonas. Um dia, desgostoso e solitário, resolve subir ao céu, transformando-se na constelação da Ursa Maior.

Inventividade narrativa - Nacionalista crítico, sem xenofobia, Macunaíma é a obra que melhor concretiza as propostas do movimento da Antropofagia (1928), criado por Oswald de Andrade, que buscava uma relação de igualdade real da cultura brasileira com as demais. Não à rejeição pura e simples do que vem de fora, mas consumir aquilo que há de bom na arte estrangeira. Não evitá-la, mas, como um antropófago, comer o que mereça ser comido.
Tom bem humorado e a inventividade narrativa e lingüística fazem de Macunaíma uma das obras modernistas brasileiras mais afinadas com a literatura de vanguarda no mundo, na sua época. Nesse romance encontram-se dadaísmo, futurismo, expressionismo e surrealismo aplicados a um vasto conhecimento das raízes da cultura brasileira.

Foco Narrativo - Embora predomine o foco da 3ª pessoa, o escritor paulista Mário de Andrade (1893-1945) inova utilizando a técnica cinematográfica de cortes bruscos no discurso do narrador, interrompendo-o para dar vez à fala dos personagens, principalmente Macunaíma. Esta técnica imprime velocidade, simultaneidade e continuidade à narrativa.
Espaço e tempo - As estripulias sucessivas de Macunaíma são vividas num espaço mágico, próprio da atmosfera fantástica e maravilhosa em que se desenvolve a narrativa. Macunaíma está fora do espaço e do tempo. Por esse motivo pode realizar fugas espetaculares e assombrosas em que, da capital de São Paulo foge para a Ponta do Calabouço, no Rio, e logo já está em Guarajá-Mirim, nas fronteiras de Mato Grosso e Amazonas para, em seguida, chupar manga-jasmim em Itamaracá de Pernambuco, tomar leite de vaca zebu em Barbacena, Minas Gerais, decifrar litóglifos na Serra do Espírito Santo e finalmente se esconder no oco de um formigueiro, na Ilha do Bananal, em Goiás". Macunaíma é um personagem marginal, anti-herói, fora-da-lei, na medida em que se contrapõe a uma sociedade moderna, organizada em um sistema racional, frio e tecnológico. Assim, o tempo é totalmente subvertido na narrativa. O herói do presente entra em contato com figuras do passado, estabelecendo-se um curioso "diálogo com os mortos": Macunaíma fala com João Ramalho (séc. XVI), com os holandeses (séc. XVII), com Hércules Florence (séc. XIX) e com Delmiro Gouveia (pioneiro da usina hidrelétrica de Paulo Afonso e industrial nordestino que criou a primeira fábrica nacional de linhas de costura).


por Hamilton Freitas