Vidas Secas - Graciliano Ramos

Seca e opressão social
Publicado em 1938, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, aborda a problemática da seca e da opressão social. O romance tem um caráter fragmentário. São episódios que acabam se interligando com uma certa autonomia. Podemos assim sintetizar os capítulos da seguinte forma:
CAP. 1 - Mudança: uma família sertaneja composta por Fabiano, sua esposa sinhá Vitória, os dois filhos do casal caracterizados por menino mais novo e menino mais velho, a cachorra Baleia e um papagaio, fugindo da seca.
CAP. 2 - Fabiano: Todo capítulo é centrado na análise de Fabiano. O seu caráter isolado, sua rusticidade e o pouco vocabulário o faz se aproximar de um bicho, pois como o narrador revela, ele "Vivia longe dos homens, só se dava bem com os animais".
CAP. 3 - Cadeia: temos a aparição do soldado amarelo simbolizando a autoridade governamental. Depois de um pequeno desentendimento, Fabiano é preso e espancado. Revolta-se contra a injustiça que sofre, desejando vingança, mas acaba se conformando.CAP. 4 - Sinhá Vitória: mostra-nos o seu desejo em adquirir uma cama de couro (como a do seu Tomás da Bolandeira ). Os esforços nesse sentido parecem inúteis, pois eles têm muito pouco com o que economizar. Nesse aspecto, o narrador mostra o inconformismo de sinhá Vitória com a sua situação, ao contrário de seu marido, que aceita os fatos de forma mais passiva.
CAP. 5 - O Menino Mais Novo: o garoto é apresentado como possuidor de um único ideal em sua vida: ser igual ao pai. Evidentemente ele não era Fabiano. Mas se fosse? Precisava mostrar que podia ser Fabiano.
CAP. 6- O Menino Mais Velho: nesse capítulo, o menino se impressiona com a palavra inferno e procura compreender o seu significado. Há uma aproximação dele com Baleia, devido à sua carência, pois a cadela lhe devota uma certa atenção.CAP 7 - Inverno: início do período chuvoso. Descrição de uma noite torrencial e os temores que a chuva despertava na família de Fabiano, capaz de invadir tudo.
CAP 8 - Festa: a família vai à cidade para as comemorações do Natal. Como Fabiano havia comprado pouco tecido, as roupas ficam muito justas. Com a falta de hábito de usar sapatos, a sensação de ridículo aumenta juntamente com o sentimento de inferioridade ao perceberem a grande diferença entre esses dois mundos.
CAP 9 - Baleia: a cadela adoece (fica hidrófoba). Cai-lhe o pêlo, estava magérrima e com o corpo cheio de chagas. Fabiano resolve matá-la , temendo que passe a doença aos filhos.
CAP 10 - Contas: nesse capítulo percebemos a opressão do proprietário rural para com o seu agregado. Fabiano é enganado no acerto de contas com o patrão, mas mesmo assim, acaba por se humilhar e pedir desculpas ao patrão, mesmo sabendo que este está lhe enganando.
CAP 11 - O Soldado Amarelo: um ano após ser preso e espancado pelo soldado amarelo, Fabiano o reencontrará na caatinga. Embora deseje vingança, acaba submetendo-se a ele e ensinando-lhe o caminho. Respeita-o por representar o governo.
CAP. 12 - O Mundo Coberto de Penas: Fabiano e sua família preparam-se para partir pelo prenúncio de outro período de seca, que é anunciado pelas aves de arribação. Fabiano atira nos pássaros para garantir alimento para a família para os próximos dias.
CAP. 13 - A Fuga: a seca começa a se tornar forte e, não tendo como resgatar sua dívida junto ao patrão, resolvem fugir. Fabiano nutre esperanças quanto ao futuro dos garotos, estudando e morando numa cidade grande; sinhá Vitória pensa um dia poder dormir em uma cama de couro. Mistura de sonhos, descrenças e frustrações em que termina o romance. Um quadro do sertão nordestino - Na estrutura da narrativa, a ação ocorre entre dois períodos de estiagem (primeiro e último capítulos). Embora haja algumas referências cronológicas presentes na obra, há uma diluição do tempo cronológico para o predomínio do psicológico. O espaço é o sertão nordestino. Narrado em 3ª pessoa é o narrador que se interioriza nos pensamentos dos personagens para revelá-los ao leitor, já que os personagens possuem uma linguagem precária. Assim, o texto fica estruturado no discurso indireto livre (predominante), no qual o narrador "toma posse" do discurso dos personagens para expô-los, evidenciando seus medos, desejos, raivas e frustrações através de monólogos interiores.
O foco narrativo ganha destaque ao converter em palavras os anseios e pensamentos das personagens.O grau de verossimilhança na caracterização de Fabiano e sua família é muito grande. A brutalidade da seca faz com que os personagens também se embruteçam, daí a freqüente recorrência do autor ao compará-los com animais, revelando seus aspectos rústicos. Há uma evidente zoomorfização das personagens. Elas não falam, mas grunhem, rosnam, gesticulam e falam palavras soltas. Cabe ao narrador interpretar e expor os seus desejos e anseios.
Sinhá Vitória é mais astuta do que o marido, é ela que percebe as trapaças do patrão (cap. 10) e também o início da estiagem (cap. 12) . Possui um espírito inconformado com a sua situação. Já a ausência de nomes e de caracteres específicos dos meninos acaba por projetá-los ao anonimato, formulando assim um caráter de denúncia.
O foco narrativo ganha destaque ao converter em palavras os anseios e pensamentos das personagens.O grau de verossimilhança na caracterização de Fabiano e sua família é muito grande. A brutalidade da seca faz com que os personagens também se embruteçam, daí a freqüente recorrência do autor ao compará-los com animais, revelando seus aspectos rústicos. Há uma evidente zoomorfização das personagens. Elas não falam, mas grunhem, rosnam, gesticulam e falam palavras soltas. Cabe ao narrador interpretar e expor os seus desejos e anseios.Sinhá Vitória é mais astuta do que o marido, é ela que percebe as trapaças do patrão (cap. 10) e também o início da estiagem (cap. 12) . Possui um espírito inconformado com a sua situação. Já a ausência de nomes e de caracteres específicos dos meninos acaba por projetá-los ao anonimato, formulando assim um caráter de denúncia.
A conotação do nome da cadela, Baleia, ganha dois sentidos: além de ser uma ironia requintada feita pelo autor, figura também como uma compensação pela carência d'água. Ela é humanizada em vários momentos, tornando-se um membro da família. Graciliano ainda utiliza-se de expressões regionais, adequando-os à sintaxe tradicional. A ausência de diálogos se faz presente devido a uma ausência vocabular por parte das personagens, que se comunicam através de onomatopéias, exclamações, resmungos e gestos, enfatizando a animalização dos personagens, que são marginalizados também pelo fator lingüístico. Por esse fator, há a predominância do discurso indireto livre, onde o narrador, através de monólogos interiores, ordena logicamente o discurso das personagens.

O AUTOR - O alagoano de Quebrângulo, Graciliano Ramos (1892-1953) é dono da melhor ficção produzida na segunda fase modernista. É um dos pontos altos da nossa literatura, em todos os tempos. A crítica evidencia no estilo de Graciliano Ramos a ausência de sentimentalismo e a capacidade de síntese, ou seja, a habilidade de dizer o essencial em pouca palavras. A linguagem rigorosa, enxuta, resulta de um trabalho consciente.
Graciliano escrevia pouco e lentamente, submetendo seu texto a várias revisões. Conta-se que jamais se sentia inteiramente satisfeito com o resultado final.
Caetés, São Bernardo e Angústia ilustram o mergulo do escritor na alma humana, com a finalidade de descobrir o que está debaixo da superficialidade da aparência. Escritos em primeira pessoa, são narrativas que se prendem à análise do mundo interior, mas sem desprezar o contexto sociopolítico em que vive cada personagem.
Nas narrativas feitas em terceira pessoa - Vidas secas (romance) e Insônia (contos) - prevalece a visão da realidade social sobre a análise psicológica das personagens. Infância e Memórias do cárcere, são narrativas autobiográficas.
OBRAS ADAPTADAS PARA O CINEMA
BIOGRAFIA DO AUTOR
por Hamilton Freitas

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home