A Hora da Estrela - Clarice Lispector
No último livro publicado em vida, Clarice Lispector (1925-1977) constrói a personagem de Macabéa através da ótica do fictício, irônico e autodepreciativo escritor/narrador Rodrigo S.M. Macabéa era uma miserável alagoana criada por uma cruel e ignorante tia beata (os pais, cujo nome Macabéa ignora, morreram quando ela tinha dois anos). Macabéa cresce vazia e sem ciência da própria existência ou de sua finitude. A obra inicia com um prefácio, em forma de dedicatória. A seguir, uma seqüência de subtítulos que sugerem vários aspectos do livro: A culpa é minha /ou/ A hora da estrela /ou/ Ela que se arranje /ou/ O direito ao grito etc.Após ser despedida e a tia morrer, ela emigra para o Rio de Janeiro, onde passa a morar num cubículo com quatro colegas de seu novo trabalho (é datilógrafa) e começa a namorar um paraibano chamado Olímpico de Jesus. O ganancioso Olímpico, que não media esforços para ascender socialmente, a troca pela oxigenada Glória, sua colega de trabalho, que lhe possibilitaria essa ascensão. Depois de um pouco tempo ela visita Carlota, uma cartomante, que lhe prevê um belo e promissor futuro.
Ao sair da cartomante "grávida do futuro", como diz a autora, ou seja, ciente de que algo possa acontecer além do presente, é atropelada por um carro de luxo e morre na hora. Mas a história em si tem menor importância no todo: para Clarice Lispector, a reflexão é mais importante do que a ação. Macabéa é uma personagem sem conteúdo, pobre de alma, um acaso que ensaia agir e pensar, mas com pouco sucesso. Ela pouco faz, simplesmente reage e por vezes se indaga perguntas cuja resposta ela não consegue. Isto vai até o momento de sua morte, quando está mais ciente de si; ao ser atropelada torna-se a estrela do que acontece: é sua hora de estrela.Profundidade psicológica em temas banais
Esse livro tem duas características fundamentais: a originalidade do estilo e a profundidade psicológica no enfoque de temas aparentemente banais. Através da personagem Macabéa, descortina-se a pobreza e ao mesmo tempo a singeleza de vidas tão pouco interessantes. A narrativa, cheia de digressões (desvio de rumo ou de assunto), que fazem lembrar o estilo de Machado de Assis, vai além da descrição realista de um cotidiano inexpressivo - questiona os valores da sociedade moderna, o papel social do artista contemporâneo e a própria existência humana..
O enredo tem importância secundária. As ações - quando ocorrem - destinam-se a ilustrar características psicológicas das personagens. O espaço exterior também tem importância secundária, uma vez que a narrativa concentra-se no espaço mental das personagens.
A Hora da Estrela transita entre o lado trágico e o lado esplêndido da vida, entre a fragilidade e a grandeza do ser humano. O tema da solidão tem a função de dar destaque às desigualdades sociais e ao enigma da vida, imprimindo novas perspectivas aos problemas e indagações que nos cercam. A narrativa é lenta, em conseqüência das inúmeras digressões do narrador-personagem Rodrigo S.M (Descrever me cansa, (...). Como é chato lidar com fatos, o cotidiano me aniquila, estou com preguiça de escrever esta história...). Rodrigo S.M., um homem em plena idade, mora no Rio de Janeiro, mas se criou no Nordeste. Gosta de solidão, fuma, não teme a natureza, mas tem medo de pessoas e não agüenta bem ouvir um assovio no escuro e o som de passos. Teve pelo menos uma namorada com quem dormiu e a quem não esqueceu..
Observando-se Rodrigo, em nada ele se diferencia de tantos homens do século XX, vivendo numa cidade como o Rio de Janeiro. Em nada, exceto pelo fato de ser um escritor e reunir nessa característica certas particularidades que o fazem único. Ao delinear-se nas páginas do livro, o narrador deixa transparecer todo o seu caráter contraditório, de neurótico obstinado, buscando livrar-se da alienação em sua própria obra. Para não se destruir, ele destrói sua personagem. Para não morrer e por temer a morte, ela mata Macabéa...
por Hamilton Freitas

SOBRE CLARICE LISPECTOR
A HORA DA ESTRELA NO CINEMA

1 Comments:
Oi... este livro é o máximo ,e vc conseguiu passar exatamente o que lí e sentí ao saborear minha escritora preferida... parabéns!! e por favor, tendo oportunidade, coloque mais obras da clarice, todos deveriam ter a oportunidade de conhecer mais sua obra...
*“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada“.(C.L.)
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