Língua & Literatura

O blog Língua & Literatura foi criado para a disciplina Projetos Experimentais como requisito parcial para a obtenção de grau em bacharel em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, pela Escola de Comunicação Social (Ecos) da Universidade Católica de Pelotas (UCPel). O objetivo é publicar resumos, análises e sínteses literárias, além de estudos de filologia e lingüística como forma de colaboração e apoio às pesquisas escolares e acadêmicas.

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segunda-feira, maio 29, 2006

Cães da Província - Luiz Antonio de Assis Brasil

O livro Cães da Província, escrito por Luiz Antonio Assis Brasil (Porto Alegre, 1945) e lançado em 1988 (editora Mercado Aberto), narra várias histórias que são ambientadas na cidade de Porto Alegre, Província de São Pedro do RS, durante o reinado do imperador D.Pedro II. O destaque maior é dado ao personagem Joaquim de Campos Leão (1829-1883), autodenominado Qorpo-Santo, que representa a intelectualidade em choque com a mediocridade dos parâmetros de sua sociedade. A obra, no entanto, não é uma biografia. Como o próprio autor ressalta, trata-se de um imaginário deste personagem contraditório da literatura dramática brasileira, e que foi considerado o precursor do teatro do absurdo.


A falta de compreensão da população leva Qorpo-Santo a ser considerado louco, devido à sua audácia em burlar os costumes da época. O narrador deixa clara durante o desenrolar dos acontecimentos, a superioridade do personagem Qorpo-Santo em relação aos demais. A forma que seu comportamento tomou é tida como conseqüência de sua imensa inteligência, conhecimento e seus conflitos internos e sentimentais. Fora abandonado por sua esposa, Inácia, que visava interditá-lo. Passa a viver só com seu criado Inesperto.

Porém, diferentemente toda a aparência de uma sociedade normal da Porto Alegre dos meados do século XIX, existe um mundo marginal onde prevalecem a violência, o adultério, a crueldade e as mentiras. Entre as histórias paralelas que, porém, não se desvinculam de Qorpo-Santo, temos a do importante comerciante Eusébio. Esse só se preocupava com sua posição social, o que tornava um homem digno e respeitável. Mas o seu maior problema foi o adultério cometido pela mulher, o que levou a uma grande mentira perante toda a cidade, ameaçando abalar sua integridade. Junto com essa história, temos os crimes que abalaram a calma da população, cometidos por um açougueiroe sua mulher. Eles dilaceravam corpos de pessoas atraídas para sua casa, a fim de fazer lingüiça.


Assim, vemos transparecer a mesquinhez, a falta de valores reais da sociedade, que se mostra mais preocupada com a interdição ou não de Qorpo-Santo do que com os crimes hediondos ocorridos. Qorpo-Santo é realmente, um personagem extraordinário. Suas idéias seus pensamentos o levam muito além dessa época. Contudo, seu comportamento não é completamente normal, porque o personagem conversa, diversas vezes, com pessoas irreais, como Napoleão III. A sua condição psíquica é levada a julgamento, havendo divergências entre os alienistas a respeito da mesma. Acaba por ser interditado, mas seus bens não são entregues à esposa. É extraditado, e a sociedade sente-se apaziguada.


Patologias individuais e coletivas
A narração é em 3ª pessoa - narrador onisciente. A realidade choca-se com a ficção nesse livro. O fato de Qorpo -Santo fantasiar um mundo só seu, à revelia dos costumes e regras tradicionais, eleva-o ainda mais. Independente da exata localização espacial, o livro extrapola, indo muito além de suas fronteiras. A denúncia é feita constantemente, mostrando a mediocridade de espírito da sociedade que é, facilmente, igualada a um cão, os cães da província. Isto porque essa população é, realmente, domada e obediente às normas e costumes impostos pela época. Assim atingindo o universal, a obra de Assis Brasil pode ser entendida por várias pessoas em diversas épocas, sem perder, de maneira alguma, seu valor real.

A própria personagem, na sua loucura, oscila entre momentos de lucidez e o mais completo desvario: " Ora sou um, ora sou outro". Assim, a ocultação e o desvelamento da vida assumem representação concreta no confronto entre as patologias individuais e coletivas, de que são ilustrativos os episódios dos cadáveres escondidos, o falso enterro de Lucrécia e sua reclusão em vida, a ambigüidade velada e ardorosa de Inácia e, principalmente, a hipocrisia das perícias médicas e dos laudos judiciais.
por Hamilton Freitas


SOBRE LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL



OBRAS E PUBLICAÇÕES

domingo, maio 28, 2006

As Horas Nuas - Lygia Fagundes Telles


As Horas Nuas (1989) pode ser considerado uma síntese de antigos trabalhos de Lygia Fagundes Telles (1921), pois demonstra que todos os elementos ficcionais da obra têm raízes em textos anteriores da autora, que se juntam através de um jogo narrativo complexo e inteiramente novo, que pode, todavia, ser facilmente desvendado por quem domina o seu universo ficcional. A autora apresenta a protagonista Rosa Ambrósio, revelando seus pensamentos e emoções íntimas. O título refere-se a um livro de memórias que supostamente Rosa está escrevendo e ao qual, constantemente, faz alusões. Rosa é descrita como uma atriz envelhecida, decadente, só e melancólica, uma vez que foi famosa (embora medíocre) e muito linda. Rosa Ambrósio é revelada como uma mãe egoísta, dona-de-casa descuidada e uma alcoólatra que atravessa a linha que separa a loucura da lucidez, sofrendo da psicose maníaco depressiva.


Incapaz de enfrentar a velhice e o abandono, torná-se alcoólatra e passa a ser assombrada pela memória daqueles que considera os homens mais importantes de sua vida: Gregório, seu marido falecido; Diogo, seu secretário e amante que a abandonou; Miguel seu amante adolescente.Um dos aspectos mais importantes dentro da história é a narrativa, que é feita sob três perspectivas diferentes. A primeira, que prevalece durante todo o romance, é a da própria Rosa, que em primeira pessoa, enfatiza suas reminiscências. A segunda voz é filtrada através do gato de Rosa, Rahul, que se descreve como um gato castrado, sem raça e com memória. Rahul narra também em primeira pessoa, agindo como testemunha de tudo que acontece com Rosa, revelando seus problemas e suas tristezas mais profundas. A terceira voz narrativa é apresentada através de um narrador impessoal, em terceira pessoa, usando o discurso direto livre, que revela detalhes sobre a vida, os sentimentos e os pensamentos de Ananta Medrado, psicanalista de Rosa de idéias feministas que desaparece misteriosamente. Depois do desaparecimento de Ananta, esse narrador focaliza Renato Medrado, primo da psicanalista, que tenta resolver o misterioso caso.


Memórias e vidas passadas


Em suas memórias, Rosa deixa transparecer seu desejo de conseguir a juventude eterna e a imortalidade. Esta idéia é enfatizada pela autora. A tentativa de Rosa escrever suas memórias está relacionada à sua natureza narcisistas e ao seu desejo de escapar da velhice e da morte. Ocasionalmente, Rahul comenta sobre suas vidas passadas, inclusive como ser humano, e questiona sua existência.


O gato pode ser visto como um espelho de Rosa, pois há muitas similaridades entre os dois: ambos são egoístas, olham suas memórias com sentimentos nostálgicos e dolorosos. Rosa e Rahul aparecem incluídos em um único ambiente, confinados num apartamento, incapazes de enfrentar o mundo externo. Assim como Rahul, castrado por Rosa quando ainda era um gatinho, a ex-atriz também se encontra privada da vida sexual.Durante todo o romance, Rosa é descrita como uma mulher que personifica claramente os valores patriarcais. Em seus comentários sobre mulheres, percebem-se todos os pressupostos patriarcais sobre a superioridade masculina: "Engravidei tão feliz, sonhando com um menino que ia se chamar Miguel. Comecei a chorar tanto quando me disseram que era menina, você sabe, homem sofre menos. Apanha menos. Na rua, na cama, em qualquer lugar é ele o agressor. Sem falar no parto, sabe-se lá o que é um parto?", comenta Rosa sobre sua filha Cordélia, cujo pai é Gregório. Seu desagrado das mulheres reflete também a idéia de que, de certa maneira, não gosta dela mesma, nem é feliz como uma mulher.Uma leitura atenta do livro mostra que o processo narrativo preocupa-se muito mais com a análise das personagens do que com a ação. Os fatos narrados são ligados entre si por reflexões profundas. A narrativa, por tratar-se de memórias, é cheia de digressões. Ao espaço exterior é dada importância secundária, já que a narrativa concentra-se, principalmente, no espaço mental das personagens.

Desde de Ciranda de Pedra (1954), seu primeiro livro, Lygia Fagundes Telles, desenvolve sua técnica e seu estilo, encaminhando, gradualmente, seus trabalhos para o pós-moderno. Vem concentrando-se também, profundamente, nos problemas das mulheres centro da sociedade patriarcal brasileira. Em As Horas Nuas, Lygia dá ênfase especial à consciência das mulheres sobre sua situação e da força e habilidade que necessitam para buscar mudanças com relação à condição do sexo feminino.

As Horas Nuas pode ser considerado uma síntese de antigos trabalhos de Lygia Fagundes Telles, pois demonstra que todos os elementos ficcionais da obra têm raízes em textos anteriores da autora, que se juntam através de um jogo narrativo complexo e inteiramente novo, que pode, todavia, ser facilmente desvendado por quem domina o seu universo ficcional.

por Hamilton Freitas


SAIBA MAIS SOBRE LYGIA FAGUNDES TELLES

OBRAS DA AUTORA

A Hora da Estrela - Clarice Lispector


No último livro publicado em vida, Clarice Lispector (1925-1977) constrói a personagem de Macabéa através da ótica do fictício, irônico e autodepreciativo escritor/narrador Rodrigo S.M. Macabéa era uma miserável alagoana criada por uma cruel e ignorante tia beata (os pais, cujo nome Macabéa ignora, morreram quando ela tinha dois anos). Macabéa cresce vazia e sem ciência da própria existência ou de sua finitude. A obra inicia com um prefácio, em forma de dedicatória. A seguir, uma seqüência de subtítulos que sugerem vários aspectos do livro: A culpa é minha /ou/ A hora da estrela /ou/ Ela que se arranje /ou/ O direito ao grito etc.

Após ser despedida e a tia morrer, ela emigra para o Rio de Janeiro, onde passa a morar num cubículo com quatro colegas de seu novo trabalho (é datilógrafa) e começa a namorar um paraibano chamado Olímpico de Jesus. O ganancioso Olímpico, que não media esforços para ascender socialmente, a troca pela oxigenada Glória, sua colega de trabalho, que lhe possibilitaria essa ascensão. Depois de um pouco tempo ela visita Carlota, uma cartomante, que lhe prevê um belo e promissor futuro.


Ao sair da cartomante "grávida do futuro", como diz a autora, ou seja, ciente de que algo possa acontecer além do presente, é atropelada por um carro de luxo e morre na hora. Mas a história em si tem menor importância no todo: para Clarice Lispector, a reflexão é mais importante do que a ação. Macabéa é uma personagem sem conteúdo, pobre de alma, um acaso que ensaia agir e pensar, mas com pouco sucesso. Ela pouco faz, simplesmente reage e por vezes se indaga perguntas cuja resposta ela não consegue. Isto vai até o momento de sua morte, quando está mais ciente de si; ao ser atropelada torna-se a estrela do que acontece: é sua hora de estrela.


Profundidade psicológica em temas banais


Esse livro tem duas características fundamentais: a originalidade do estilo e a profundidade psicológica no enfoque de temas aparentemente banais. Através da personagem Macabéa, descortina-se a pobreza e ao mesmo tempo a singeleza de vidas tão pouco interessantes. A narrativa, cheia de digressões (desvio de rumo ou de assunto), que fazem lembrar o estilo de Machado de Assis, vai além da descrição realista de um cotidiano inexpressivo - questiona os valores da sociedade moderna, o papel social do artista contemporâneo e a própria existência humana..
O enredo tem importância secundária. As ações - quando ocorrem - destinam-se a ilustrar características psicológicas das personagens. O espaço exterior também tem importância secundária, uma vez que a narrativa concentra-se no espaço mental das personagens.


A Hora da Estrela transita entre o lado trágico e o lado esplêndido da vida, entre a fragilidade e a grandeza do ser humano. O tema da solidão tem a função de dar destaque às desigualdades sociais e ao enigma da vida, imprimindo novas perspectivas aos problemas e indagações que nos cercam. A narrativa é lenta, em conseqüência das inúmeras digressões do narrador-personagem Rodrigo S.M (Descrever me cansa, (...). Como é chato lidar com fatos, o cotidiano me aniquila, estou com preguiça de escrever esta história...). Rodrigo S.M., um homem em plena idade, mora no Rio de Janeiro, mas se criou no Nordeste. Gosta de solidão, fuma, não teme a natureza, mas tem medo de pessoas e não agüenta bem ouvir um assovio no escuro e o som de passos. Teve pelo menos uma namorada com quem dormiu e a quem não esqueceu..
Observando-se Rodrigo, em nada ele se diferencia de tantos homens do século XX, vivendo numa cidade como o Rio de Janeiro. Em nada, exceto pelo fato de ser um escritor e reunir nessa característica certas particularidades que o fazem único. Ao delinear-se nas páginas do livro, o narrador deixa transparecer todo o seu caráter contraditório, de neurótico obstinado, buscando livrar-se da alienação em sua própria obra. Para não se destruir, ele destrói sua personagem. Para não morrer e por temer a morte, ela mata Macabéa...

por Hamilton Freitas




SOBRE CLARICE LISPECTOR

A HORA DA ESTRELA NO CINEMA

sexta-feira, maio 26, 2006

Vidas Secas - Graciliano Ramos


Seca e opressão social


Publicado em 1938, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, aborda a problemática da seca e da opressão social. O romance tem um caráter fragmentário. São episódios que acabam se interligando com uma certa autonomia. Podemos assim sintetizar os capítulos da seguinte forma:

CAP. 1 - Mudança: uma família sertaneja composta por Fabiano, sua esposa sinhá Vitória, os dois filhos do casal caracterizados por menino mais novo e menino mais velho, a cachorra Baleia e um papagaio, fugindo da seca.

CAP. 2 - Fabiano: Todo capítulo é centrado na análise de Fabiano. O seu caráter isolado, sua rusticidade e o pouco vocabulário o faz se aproximar de um bicho, pois como o narrador revela, ele "Vivia longe dos homens, só se dava bem com os animais".

CAP. 3 - Cadeia: temos a aparição do soldado amarelo simbolizando a autoridade governamental. Depois de um pequeno desentendimento, Fabiano é preso e espancado. Revolta-se contra a injustiça que sofre, desejando vingança, mas acaba se conformando.

CAP. 4 - Sinhá Vitória: mostra-nos o seu desejo em adquirir uma cama de couro (como a do seu Tomás da Bolandeira ). Os esforços nesse sentido parecem inúteis, pois eles têm muito pouco com o que economizar. Nesse aspecto, o narrador mostra o inconformismo de sinhá Vitória com a sua situação, ao contrário de seu marido, que aceita os fatos de forma mais passiva.

CAP. 5 - O Menino Mais Novo: o garoto é apresentado como possuidor de um único ideal em sua vida: ser igual ao pai. Evidentemente ele não era Fabiano. Mas se fosse? Precisava mostrar que podia ser Fabiano.

CAP. 6- O Menino Mais Velho: nesse capítulo, o menino se impressiona com a palavra inferno e procura compreender o seu significado. Há uma aproximação dele com Baleia, devido à sua carência, pois a cadela lhe devota uma certa atenção.

CAP 7 - Inverno: início do período chuvoso. Descrição de uma noite torrencial e os temores que a chuva despertava na família de Fabiano, capaz de invadir tudo.

CAP 8 - Festa: a família vai à cidade para as comemorações do Natal. Como Fabiano havia comprado pouco tecido, as roupas ficam muito justas. Com a falta de hábito de usar sapatos, a sensação de ridículo aumenta juntamente com o sentimento de inferioridade ao perceberem a grande diferença entre esses dois mundos.

CAP 9 - Baleia: a cadela adoece (fica hidrófoba). Cai-lhe o pêlo, estava magérrima e com o corpo cheio de chagas. Fabiano resolve matá-la , temendo que passe a doença aos filhos.

CAP 10 - Contas: nesse capítulo percebemos a opressão do proprietário rural para com o seu agregado. Fabiano é enganado no acerto de contas com o patrão, mas mesmo assim, acaba por se humilhar e pedir desculpas ao patrão, mesmo sabendo que este está lhe enganando.

CAP 11 - O Soldado Amarelo: um ano após ser preso e espancado pelo soldado amarelo, Fabiano o reencontrará na caatinga. Embora deseje vingança, acaba submetendo-se a ele e ensinando-lhe o caminho. Respeita-o por representar o governo.

CAP. 12 - O Mundo Coberto de Penas: Fabiano e sua família preparam-se para partir pelo prenúncio de outro período de seca, que é anunciado pelas aves de arribação. Fabiano atira nos pássaros para garantir alimento para a família para os próximos dias.

CAP. 13 - A Fuga: a seca começa a se tornar forte e, não tendo como resgatar sua dívida junto ao patrão, resolvem fugir. Fabiano nutre esperanças quanto ao futuro dos garotos, estudando e morando numa cidade grande; sinhá Vitória pensa um dia poder dormir em uma cama de couro. Mistura de sonhos, descrenças e frustrações em que termina o romance.
Um quadro do sertão nordestino - Na estrutura da narrativa, a ação ocorre entre dois períodos de estiagem (primeiro e último capítulos). Embora haja algumas referências cronológicas presentes na obra, há uma diluição do tempo cronológico para o predomínio do psicológico. O espaço é o sertão nordestino. Narrado em 3ª pessoa é o narrador que se interioriza nos pensamentos dos personagens para revelá-los ao leitor, já que os personagens possuem uma linguagem precária. Assim, o texto fica estruturado no discurso indireto livre (predominante), no qual o narrador "toma posse" do discurso dos personagens para expô-los, evidenciando seus medos, desejos, raivas e frustrações através de monólogos interiores.

O foco narrativo ganha destaque ao converter em palavras os anseios e pensamentos das personagens.O grau de verossimilhança na caracterização de Fabiano e sua família é muito grande. A brutalidade da seca faz com que os personagens também se embruteçam, daí a freqüente recorrência do autor ao compará-los com animais, revelando seus aspectos rústicos. Há uma evidente zoomorfização das personagens. Elas não falam, mas grunhem, rosnam, gesticulam e falam palavras soltas. Cabe ao narrador interpretar e expor os seus desejos e anseios.

Sinhá Vitória é mais astuta do que o marido, é ela que percebe as trapaças do patrão (cap. 10) e também o início da estiagem (cap. 12) . Possui um espírito inconformado com a sua situação. Já a ausência de nomes e de caracteres específicos dos meninos acaba por projetá-los ao anonimato, formulando assim um caráter de denúncia.

A conotação do nome da cadela, Baleia, ganha dois sentidos: além de ser uma ironia requintada feita pelo autor, figura também como uma compensação pela carência d'água. Ela é humanizada em vários momentos, tornando-se um membro da família. Graciliano ainda utiliza-se de expressões regionais, adequando-os à sintaxe tradicional. A ausência de diálogos se faz presente devido a uma ausência vocabular por parte das personagens, que se comunicam através de onomatopéias, exclamações, resmungos e gestos, enfatizando a animalização dos personagens, que são marginalizados também pelo fator lingüístico. Por esse fator, há a predominância do discurso indireto livre, onde o narrador, através de monólogos interiores, ordena logicamente o discurso das personagens.



O AUTOR
- O alagoano de Quebrângulo, Graciliano Ramos (1892-1953) é dono da melhor ficção produzida na segunda fase modernista. É um dos pontos altos da nossa literatura, em todos os tempos. A crítica evidencia no estilo de Graciliano Ramos a ausência de sentimentalismo e a capacidade de síntese, ou seja, a habilidade de dizer o essencial em pouca palavras. A linguagem rigorosa, enxuta, resulta de um trabalho consciente.
Graciliano escrevia pouco e lentamente, submetendo seu texto a várias revisões. Conta-se que jamais se sentia inteiramente satisfeito com o resultado final.
Caetés, São Bernardo e Angústia ilustram o mergulo do escritor na alma humana, com a finalidade de descobrir o que está debaixo da superficialidade da aparência. Escritos em primeira pessoa, são narrativas que se prendem à análise do mundo interior, mas sem desprezar o contexto sociopolítico em que vive cada personagem.
Nas narrativas feitas em terceira pessoa - Vidas secas (romance) e Insônia (contos) - prevalece a visão da realidade social sobre a análise psicológica das personagens. Infância e Memórias do cárcere, são narrativas autobiográficas.



OBRAS ADAPTADAS PARA O CINEMA


BIOGRAFIA DO AUTOR

por Hamilton Freitas

Os Ratos - Dyonélio Machado

As 24 horas angustiantes

Lançado em 1935, Os Ratos, do gaúcho Dyonélio Machado, traça a trajetória de um dia na vida de Naziazeno Barbosa, um funcionário público que, numa certa manhã, vê-se diante de um problema: não possui dinheiro para pagar o leiteiro, estando ameaçado de perder o fornecimento. Perante a possibilidade de retirar de seu filho pequeno este alimento, resolve sair em busca do dinheiro para pagar a dívida.

O relato começa com a discussão com o leiteiro, que lhe dá mais um dia para pagar a conta do leite, e dura 24 horas, sendo concluída na manhã do dia seguinte. O protagonista sai para o serviço, toma o bonde, mas ao descer, impaciente, vai para o café da esquina, onde pretende encontrar o seu amigo Duque. Pensa em ir a repartição falar com o diretor e pedir 60 mil réis, mas se lembra que ele já havia lhe emprestado 20 mil réis durante a doença de seu filho.

Às 9h, vai até a repartição e tenta começar a trabalhar. O trabalho de Naziazeno é monótono: copiar faturas num livro grande, o qual estava atrasado em mais ou menos dez meses. Só que naquele dia ele não tinha cabeça para trabalhar, tenta falar com o diretor, mas não consegue e seu plano começa a ficar abalado. Pensa novamente no Duque, que há de orientá-lo, sugerindo se Naziazeno não tem nada para empenhar.


Retorna ao café, não encontra o Duque, mas encontra Alcides, que sugere saírem para tentar encontrar o Duque pelos cafés do centro. A manhã estava quase perdida, só lhe restava pedir ajuda ao diretor. Alcides convida Naziazeno para jogar no bicho. Na repartição, o diretor lhe diz que não tem nenhuma fábrica de dinheiro e frustra suas expectativas.

Na seqüência dos fatos, é mostrada a incapacidade de Naziazeno para decidir as coisas. Ele pensa em almoçar no restaurante dos operários e pedir dinheiro para o almoço para o dr. Otávio Conti. Encontra o amigo Costa Miranda, a quem pede 10 e recebe 5 mil réis. Fica indeciso e não sabe se almoça ou vai ao mercado conversar com amigos. Acaba indo jogar numa roleta clandestina. Com fome, pensa em filar um café, mas não consegue e toma um copo de água. Acerta no número 28 e ganha 175 mil réis. Continua apostando e perde tudo. Depois descobre que perdeu no bicho também.

Novamente no café, Naziazeno, Alcides e Duque tentam de várias maneiras encontrar soluções para o problema. Recorrem a várias pessoas sempre sem sucesso. Duque lembra que Alcides tem um anel empenhado por 180 mil réis e traça um plano para melhorar o penhor: era necessário resgatar o anel e empenhá-lo em outra parte. Para isso é necessária a ajuda do dr. Mondina, que aceita emprestar o dinheiro para a retirada do anel. Vão para a casa de penhores, mas já são 18h, e ela já se encontra fechada. Alcides convence o proprietário a atendê-los e acaba resgatando o anel. Tentam empenhar o anel novamente em uma joalheria, mas não conseguem. Já são 20h, e o dr. Mondina acaba emprestando o dinheiro. Duque se compromete em fazer o penhor no outro dia. Mondina fica com o anel em garantia do dinheiro.


Naziazeno chega em casa às 21h, trazendo do conserto um sapato de sua mulher Adelaide, manteiga, um pedaço de queijo e dois leõezinhos de borracha para o filho, que já estava dormindo. Deita-se exausto, depois de comer alguma coisa, mas antes coloca o dinheiro junto à panela do leite, em cima da mesa. Passa a noite a se revirar na cama. Quase pela manhã, entorpecido pelo sono, imagina que ratos estão roendo o dinheiro que deixara para o leiteiro. Convencido que perdera o dinheiro, volta à realidade ao ouvir o barulho do leite sendo despejado na leiteira e os passos do leiteiro, que se afastava, fechando o portão. Naziazeno então dorme.

Literatura de caráter social - Temos em Os Ratos uma narrativa, em terceira pessoa, de episódios cronometrados, passados na Porto Alegre dos anos 30, com o espaço diversificado (mercado, centro bibliotecas e praças). O fluxo da narrativa acompanha o modelo convencional de relato: o conflito central motiva à ação do protagonista.

O desenvolvimento da intriga culmina no sucesso da busca pelo dinheiro e a dissolução do conflito. Esta configuração, todavia, é aparente. É o que confere originalidade ao relato de Dyonelio Machado. Na verdade, o conflito não inicia quando ocorre a ameaça do leiteiro.

Uma boa leitura permite que o leitor fique informado de tantas outras dívidas da personagem e que o drama não acaba com o pagamento da conta. Naziazeno deve a mais alguns e nada indica que no próximo mês não venha a ser cobrado novamente pelo leiteiro ou outro vendedor.

As 24 horas narradas representam todo e qualquer dia de um trabalhador que não consegue sobreviver com seu modesto salário, além de evidenciar o angustiante percurso vivido, pois se todos os dias são assim, a existência converte-se num estafante, interminável e improdutivo exercício destinado ao pagamento de dívidas, oriundas de uma irremediável falta de dinheiro.

O romance, dividido em 28 capítulos e escrito em 20 noites seguidas, foi festajeado logo após o seu lançamento, em 1935, sobretudo pela mensagem de reivindicação social que contém. Apontaram-no como um retrato vivo da proletalização, já então progressiva, da classe média brasileira.




O autor - Dyonélio Machado nasceu em 28 de agosto de 1895, em Quarai (RS). Diplomou-se em 1929 pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre, especializando-se em Psiquiatria. Dedicou-se também ao jornalismo, como redator e, posteriormente, diretor interino do Correio do Povo, de Porto Alegre.
Exerceu mandato de deputado no Rio Grande do Sulk, antes da implantação do Estado Novo. Dionélio alcançou notoriedade com Os Ratos, publicado em 1935, no Rio de Janeiro, logo após ter sido premiado, juntamente com obras de Érico Veríssimo, Marques Rabelo e João Alphonsus, em concurso em nível nacional.

por Hamilton Freitas




Outras obras
Conto: Um Pobre Homem (1927)
Romance: O Louco do Cati (1942); Desolação (1944); Passos Perdidos; Os Deuses Econômicos (1966)

BIOGRAFIA DO AUTOR

Macunaíma - Mário de Andrade


Lendas, provérbios e outros fragmentos da cultura popular

Publicado em 1928, numa tiragem de apenas oitocentos exemplares (Mário de Andrade não conseguira editor), Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, é uma das obras pilares da cultura brasileira. Ela foi classificada pelo autor não como romance, mas como rapsódia. Como nas rapsódias musicais, que se utilizam de colagens de elementos extraídos de cantos populares tradicionais, a obra resulta da utilização de lendas, ditos provérbios e máximas, em resumo, fragmentos da cultura popular, reunidos em torno do personagem central - Macunaíma.
Através de uma narrativa fantástica e picaresca, ou, melhor dizendo, "malandra", herdeira direta das Memórias de um Sargento de Milícias (1852), de Manuel Antônio de Almeida, Mário de Andrade reelabora literariamente temas de mitologia indígena e visões folclóricas da Amazônia e do resto do país, fundando uma nova linguagem literária brasileira.
A narrativa pode ser assim resumida: Macunaíma nasce sem pai, na tribo dos índios Tapanhumas, às margens do rio Uraricoera. Morta a mãe, Macunaíma e os irmãos partem em busca da aventura. Do encontro com as Amazonas resulta o casamento de Macunaíma com Ci, a mãe do mato. Ci gera um menino que morre e se transforma na planta do guaraná. Pouco depois, sentindo que vai morrer de desgosto, Ci dá a Macunaíma um amuleto, a pedra muiraquitã. Ci morre pouco depois, transformada em estrela - a beta do Centauro.
O amuleto, que o herói tinha perdido, reaparece nas mãos de Venceslau Pietro Pietra, mascate peruano que morava em São Paulo e que na verdade é Piaimã, o gigante antropófago. Um passarinho dá notícias do amuleto a Macunaíma. Acompanhado dos irmãos Jiguê e Maanage, Macunaíma desce o rio Araguaia, a caminho de São Paulo, visando a recuperar seu amuleto. Após inúmeras aventuras em sua caminhada, o herói recupera o amuleto, matando Piaimã. Logo em seguida, a pedra desaparece novamente. Perseguido pelo minhocão Oibê, Macunaíma percorre todo o Brasil e volta para o Amazonas. Um dia, desgostoso e solitário, resolve subir ao céu, transformando-se na constelação da Ursa Maior.

Inventividade narrativa - Nacionalista crítico, sem xenofobia, Macunaíma é a obra que melhor concretiza as propostas do movimento da Antropofagia (1928), criado por Oswald de Andrade, que buscava uma relação de igualdade real da cultura brasileira com as demais. Não à rejeição pura e simples do que vem de fora, mas consumir aquilo que há de bom na arte estrangeira. Não evitá-la, mas, como um antropófago, comer o que mereça ser comido.
Tom bem humorado e a inventividade narrativa e lingüística fazem de Macunaíma uma das obras modernistas brasileiras mais afinadas com a literatura de vanguarda no mundo, na sua época. Nesse romance encontram-se dadaísmo, futurismo, expressionismo e surrealismo aplicados a um vasto conhecimento das raízes da cultura brasileira.

Foco Narrativo - Embora predomine o foco da 3ª pessoa, o escritor paulista Mário de Andrade (1893-1945) inova utilizando a técnica cinematográfica de cortes bruscos no discurso do narrador, interrompendo-o para dar vez à fala dos personagens, principalmente Macunaíma. Esta técnica imprime velocidade, simultaneidade e continuidade à narrativa.
Espaço e tempo - As estripulias sucessivas de Macunaíma são vividas num espaço mágico, próprio da atmosfera fantástica e maravilhosa em que se desenvolve a narrativa. Macunaíma está fora do espaço e do tempo. Por esse motivo pode realizar fugas espetaculares e assombrosas em que, da capital de São Paulo foge para a Ponta do Calabouço, no Rio, e logo já está em Guarajá-Mirim, nas fronteiras de Mato Grosso e Amazonas para, em seguida, chupar manga-jasmim em Itamaracá de Pernambuco, tomar leite de vaca zebu em Barbacena, Minas Gerais, decifrar litóglifos na Serra do Espírito Santo e finalmente se esconder no oco de um formigueiro, na Ilha do Bananal, em Goiás". Macunaíma é um personagem marginal, anti-herói, fora-da-lei, na medida em que se contrapõe a uma sociedade moderna, organizada em um sistema racional, frio e tecnológico. Assim, o tempo é totalmente subvertido na narrativa. O herói do presente entra em contato com figuras do passado, estabelecendo-se um curioso "diálogo com os mortos": Macunaíma fala com João Ramalho (séc. XVI), com os holandeses (séc. XVII), com Hércules Florence (séc. XIX) e com Delmiro Gouveia (pioneiro da usina hidrelétrica de Paulo Afonso e industrial nordestino que criou a primeira fábrica nacional de linhas de costura).


por Hamilton Freitas

Casos do Romualdo - Simões Lopes Neto

Casos do Romualdo foi publicado, inicialmente, em 1914 sob a forma de folhetim no jornal pelotense Correio Mercantil. Completando as histórias de Simões Lopes Neto sobre o Rio Grande do Sul, este livro conta os vários casos de Romualdo, gaúcho do interior, contidos em suas memórias. São 21 contos, com histórias hilárias e fantásticas sobre caças, viagens e outros assuntos relacionados à temática gauchesca, contados no estilo de fala local.
Simões Lopes Neto inicia a obra com Primeiro Caso, que conta que um desconhecido, na véspera de Natal, deixou em sua casa um pacote sem remetente, sem endereço e sem destinatário. Ao abrir o pacote, encontra um caderno com os "Casos do Romualdo". Desta forma, o autor isenta-se, passando a palavra para o próprio Romualdo, que se apresenta como contador no segundo caso Sou Eu, O Homem e classifica os ouvintes em três tipos: 1) Toco plantado; soleira de porta, parafuso de dobradiça (metáfora dos que nunca saíram de sua terra) - para esses, ele não fala; 2) galo de torre de igreja, coleira de cachorro, sanguessuga de barbeiro (metáfora dos que viajaram pouco) - para esses, pouco fala; 3) realejo de gringo, travesseiro de hotel, patacão de prata (metáfora dos muito viajados) - esses são os ouvintes preferidos dele. Isso porque considera que quanto menos viajou um homem, menos crê no que os outros contam.

Na seqüência, Romualdo narra Quinta de São Romualdo, que trata da iniciativa de plantar abóboras em sua chácara, pois acreditava que as sementes exterminariam com a tênia, parasita intestinal, porém é logrado com as sementes, que eram de capim barba-de-bode. Daí compra preás para eliminar a praga; depois compra gatos para acabar com as preás; a seguir, compra cães para terminar com gatos e, por fim, contrata gringos, tocadores de realejos, para livrar-se dos cães. Endividado e dado como morto, vende a chácara e foge.
Seguindo a linha da narrativa fantástica, entre outros casos, vê-se o parto de 87 crianças ao mesmo tempo e da mesma mãe, a caça de onças com sebo de vela, a espécie de tatu que tinha o rabo aparafusado ao corpo. Para caçá-los era só pôr a mão na toca do bicho, desaparafusar-lhe o rabo, e em seguida, esperar que eles saíssem da toca à procura dos rabos, sendo assim, possível caçá-los (se não caçados, enterram o rabo no chão e giram sobre ele até fixá-lo novamente ao corpo). Tem também, o caso da figueira, que depois de uma poda e por um problema genético, começou a dar frutos de todas as espécies: laranjas, cocos, melancias, limões, pêras e até mesmo algo que se parecia com partes de galinhas.

Alguns casos vividos e narrados por Romualdo não se passam necessariamente no Rio Grande do Sul. Entre Bugios, por exemplo, acontece no norte do Brasil, e conta a história de um bando de macacos bugios que aprende a trabalhar e começa a adquirir hábitos humanos. Romualdo se pergunta: "será que um dia os macacos, se estimulados, não se tornariam iguais ao homem?". Três Cobras se passa durante a Guerra do Paraguai, Enfiada de Macacos, num rio em Goiás, e O Dia das Munhecas em plena selva amazônica.

O autor - O Capitão João Simões Lopes Neto (1865-1916) publicou três livros em toda a vida, todos na cidade em que nascera, Pelotas, no RS. Foram eles Cancioneiro Guasca, Lendas do Sul e Contos Gauchescos. Fez teatro e, apesar de suas obras terem sempre cunho tradicionalista, era um homem de hábitos urbanos. Acalentava grandes sonhos literários e anunciou na primeira edição deste último livro que já tinha seis outros prontos, dos quais apenas Cancioneiro Guasca e Casos do Romualdo foram publicados em vida. Seu reconhecimento como escritor foi póstumo.
O Pré-Modernismo não pode ser considerado uma escola literária, mas sim um período literário de transição do Realismo/Naturalismo para o Modernismo. De caráter inovador, a maioria de seus membros não se enquadra como Modernistas por não terem sobrevivido o suficiente para participar ou terem criticado o movimento. O período histórico que precedeu a Semana de Arte Moderna (1922) teve significado artístico e não apenas um registro histórico, pelo surgimento de uma literatura social mais problematizadora, sem o mecanismo das correntes artísticas do Realismo-Naturalismo. Foi uma tendência mais autenticamente nacional, voltada para os problemas concretos do país.


por Hamilton Freitas

Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto




O sonho de um patriota exaltado


O romance narra a vida de Policarpo Quaresma, um modesto funcionário público que, em seu idealismo patriótico, vê o Brasil como um recanto de farturas, facilidades e amor. Isso orienta seu projeto de reforma nacional, visando a "despertar a pátria do sono inconsciente em que jazia, ignorante de seu potencial, e conduzi-la ao merecido lugar de maior nação do mundo".
Sonhador e ingênuo, Policarpo dedica a vida a estudar as riquezas do país: a cultura popular, a fauna, a flora, os rios etc. Sua primeira decepção se dá quando sugere a substituição do português, como língua oficial, pelo tupi. O resultado é sua internação em um hospício. Aposentado, dedica-se à agricultura no sítio Sossego, acreditando na fertilidade do solo brasileiro. Contudo, depara-se com problemas como a esterilidade do solo, o ataque das saúvas, a falta de apoio ao pequeno agricultor, uma realidade que até então lhe era desconhecida.


Finalmente, com a eclosão da Revolta da Armada, no Rio de Janeiro, Quaresma apóia o então presidente, Marechal Floriano Peixoto, e como voluntário participa do conflito. Assumindo o cargo de carcereiro, critica as injustiças praticadas contra os prisioneiros. Como conseqüência, é preso e condenado ao fuzilamento por ordem do próprio Floriano, seu ídolo.
Além da descrição política do país nesse início da república, a obra traça um rico painel social e humano dos subúrbios cariocas na virada do século. Aposentados, profissionais liberais, moças casadoiras, carreiristas, músicos, donas de casa, o mulato - esse é o universo retratado por Lima Barreto em Triste Fim... Destacam-se, nesse conjunto, as personagens Ismênia, moça formada para o casamento que enlouquece quando abandonada pelo noivo; Olga, sobrinha de Policarpo, que difere da maioria das mulheres por ser mais independente; e o violonista e cantor de modinhas, amigo de Policarpo, Ricardo Coração-dos-outros.


Caminhada ufanista

Publicado em folhetim em 1911, e em livro em 1915, Triste Fim de Policarpo Quaresma é um dos grandes herdeiros do Naturalismo. O romance disseca o sonho de um patriota exaltado, ao mesmo tempo em que apresenta uma sátira impiedosa e bem-humorada do Brasil. A narrativa desenvolve-se no Rio de Janeiro, fazendo aparecer o Arsenal da Marinha (instituição), o Major Policarpo Quaresma (funcionário público) e personalidades da vida política, como é o caso de Floriano Peixoto. A leitura revela que a obra, narrada em terceira pessoa, divide-se em três diferentes fases. A primeira parte retrata o cotidiano simples e suburbano do funcionário público ufanista e sonhador, que pretende instaurar no país uma reforma cultural; já a segunda parte refere-se a Quaresma, que, ao sair do hospício, torna-se proprietário rural; e num terceiro momento, ocorre o estágio final do romance, no qual o protagonista apresenta-se como soldado voluntário na Revolta da Armada, de 1893, revelando o clima político da República Velha.
Ao fim dessa caminhada ufanista, o país revela-se inóspito, precário, infecundo, cruel, opressor e odioso. A narrativa desconstrói o mito romântico de um Brasil superior. Evidencia a distância entre o sonho e a realidade; critica o idealismo inconseqüente, incapaz de enxergar as verdadeiras dimensões do real.

O autor - Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) era mestiço, de origem humilde, nascido no Rio de Janeiro, em 1881. Dedicou-se de uma forma polêmica ao jornalismo e à literatura de crítica social. Seu pai foi considerado louco e ele próprio esteve internado em casa de desajustados mentais. A vida boêmia e o alcoolismo parecem não ter prejudicado seu trabalho intelectual, mas o levaram à morte prematura, em 1922.
A principal contribuição de Lima Barreto para a literatura contemporânea consiste no abandono do modo artificial e erudito de escrever - dominante em seu tempo e característico do período literário chamado Pré-Modernismo. Adotou na obra e em seus demais romances a informalidade estilística própria do jornalismo e da fala cotidiana. Soube registrar com minúcia muitos aspectos da vida social e política do Rio de Janeiro no tempo da Primeira República. Partilhava da idéia de que a literatura devia expressar diretamente os sentimentos e idéias pessoais do escritor. Por isso, quase todos os seus romances possuem lances autobiográficos.


por Hamilton Freitas

MAIS SOBRE A VIDA E A OBRA DE LIMA BARRETO

SOBRE O PRÉ-MODERNISMO

POLICARPO QUARESMA NO CINEMA

quinta-feira, maio 25, 2006

Dom Casmurro - Machado de Assis

Órfão de pai, criado com desvelo pela mãe Dona Glória, protegido do mundo pelo círculo doméstico e familiar (tia Justina, tio Cosme, José Dias), Bento Santiago ou Bentinho é destinado à vida sacerdotal, em cumprimento a uma antiga promessa da mãe: torná-lo padre. A vida do seminário, no entanto, não o atrai. O compromisso é desfeito e Bentinho pode escolher uma carreira liberal e casar-se com Capitu. Eles têm um filho, Ezequiel, e mantêm estreita amizade com o casal Escobar e Sancha. Com a morte de Escobar, Capitu sofre tanto que Bentinho começa a suspeitar que ela o tivesse amado. A desconfiança aumenta à medida que Ezequiel cresce e se parece cada vez mais com Escobar. Bentinho muito ciumento, chega a planejar o assassinato da esposa e do filho, seguido pelo seu suicídio, mas não tem coragem. A tragédia dilui-se na separação do casal. Capitu viaja com o filho para a Europa, onde morre anos depois. Ezequiel, já moço, volta ao Brasil para visitar o pai, que apenas constata a semelhança entre o filho e seu antigo colega de seminário. Ezequiel viaja para terras distantes em uma viagem de estudos, durante a qual também morrerá. Bentinho, cada vez mais fechado em suas dúvidas, passa a ser chamado de casmurro pelos amigos e vizinhos e põe-se a escrever a história de sua vida.

Desde seu lançamento, em 1899, Dom Casmurro é um sucesso de crítica e de público, apontado como uma das obras-primas da literatura em Língua Portuguesa. Narrado em primeira pessoa, a obra trata de um dos mais explorados temas da prosa literária - o triângulo amoroso - por meio das personagens Bentinho, Capitu e Escobar.
Bentinho (que é o narrador) afirma que o objetivo, ao escrever o livro sobre a sua história, era "atar as duas pontas da vida" na expectativa de que a narrativa lhe permitisse compreender sua própria trajetória existencial. É, entretanto, pela fala de Bentinho que conhecemos os fatos e é pelo filtro de sua visão que formamos o perfil psicológico de cada uma das personagens. Em Dom Casmurro, não se pode afirmar que Capitu traiu Bentinho. Tal impossibilidade deve-se, principalmente, ao fato de o ponto de vista da narrativa ser do próprio personagem supostamente traído, Bento Santiago.
Como evidenciado em suas demais obras, no processo narrativo de Dom Casmurro, Machado de Assis (1839-1908) preocupa-se muito mais com a análise das personagens do que com a ação. Por isso, em suas narrativas, pouca coisa acontece: há poucos fatos em suas histórias e todos são ligados entre si por reflexões profundas.

Quanto aos personagens, o escritor busca inspiração nas ações rotineiras do homem. Penetrando na consciência das personagens para sondar-lhes o funcionamento. Machado mostra-nos a vaidade, a futilidade, a hipocrisia, a ambição, a inveja e a inclinação ao adultério, além de evidenciar os impulsos contraditórios existentes em qualquer ser humano, o que torna difícil classificar suas personagens em boas ou más. Um bom motivo para ler integralmente Dom Casmurro é defender um dos pólos da ambigüidade do romance.
Dom Casmurro faz parte do conjunto da produção literária do Realismo, estilo que juntamente com o Naturalismo marcou a segunda metade do século XIX. O romance realista cultivado por Machado de Assis é uma narrativa preocupada com a análise psicológica, fazendo críticas à sociedade a partir do comportamento de determinadas personagens.

Machado de Assis (1839-1908) é o nosso mais importante prosador realista e, ao contrário de muitos escritores de sua época, conheceu ainda em vida o prestígio e a fama. Foi um dos fundadores, em 1897, da Academia Brasileira de Letras e eleito seu presidente vitalício. Ao morrer, recebeu honras fúnebres de chefe de estado. Sua obra divide-se em duas etapas muito diferentes, embora uma seja complemento da outra. A primeira fase é marcada por elementos do romantismo, enquanto que na segunda fase, predomina o que se pode chamar de "realismo machadiano". Nessa segunda fase estão os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908).
por Hamilton Freitas

Lucíola - José de Alencar


O romance Lucíola, lançado em 1862, durante a escola literária denominada Romantismo, traz a história de Maria da Glória, forçada a prostituir-se para salvar a vida de sua família, dizimada pela febre amarela. Adota, então, o nome Lúcia, e torna-se uma das mais cobiçadas cortesãs do Rio de Janeiro.

Paulo, um jovem bacharel pernambucano, apaixona-se por Lúcia. Apesar da condição de prostituta, ele se dispõe a assumi-la como mulher. O romance é alvo de comentários na corte e o relacionamento entre ambos torna-se muito difícil: o olhar da sociedade os inculpa. Mesmo com os momentos de autodestruição de Lúcia e a vontade que Paulo tem de renunciar ao seu amor, os dois acabam indo morar num sítio fora da cidade. Quando a união dos dois parece se sacramentar, Lúcia morre. Antes, porém, ela encaminha sua irmã mais nova para uma vida diferente da sua, sob a proteção de Paulo.A narração do romance é conduzida por Paulo, de forma que a história é contada de sua perspectiva. Apesar do livro girar em torno de uma prostituta, "Lucíola" é um romance extremamente moralista e moralizante. O livro dissocia radicalmente o amor físico e o amor espiritual.


Quando Lúcia se apaixona por Paulo, começa a afastar-se de sua vida de prostituição e, mais do que isso, começa a abster-se de qualquer relação sexual. Inicialmente, recusa seus fregueses habituais. Posteriormente, conforme aumenta o amor dos dois, a relação entre ambos torna-se platônica, o que simbolicamente abre caminho para a "purificação" da moça. Essa purificação, porém, não é suficiente para que a sociedade a perdoe.
A culpa a impede de casar-se com Paulo, e ela e o filho que tiveram morrerão ao fim do romance. Todavia, o processo de purificação vai tão longe que, no final, Paulo diz textualmente que possui a alma de Lúcia: "Há seis anos que ela me deixou; mas eu recebi sua alma, que me acompanhará eternamente".


Lucíola é um dos mais curiosos trabalhos do cearense José de Alencar (1829-1877). Há nele um clima de sensualidade constante combinado com o ardor e sofrimento, bem no clima da literatura romântica que predominava na segunda metade do século XIX, quando foi escrito o romance.
É um romance narrado em primeira pessoa, ou seja, a narração é feita por meio de um personagem que viveu os episódios. No caso, esse personagem narrador é Paulo, que em cartas dirigidas a uma senhora conta uma história de amor acontecida há seis anos entre ele e Lúcia. A senhora reuniu as cartas e delas fez um livro, ao qual intitulou Lucíola: "Eis o destino que lhes dou; quanto ao título, não me foi difícil achar... lembrou-me o nome de um inseto. Lucíola é o lampiro noturno que brilha de uma luz tão viva no seio da treva e à beira dos charcos. Não será a imagem verdadeira da mulher que no abismo da perdição conserva a pureza d'alma?".


Na estrutura narrativa, portanto, pode-se observar o seguinte:
a) há um autor real, José de Alencar;
b) um autor fictício, a senhora G.M., destinatária das cartas de Paulo;
c) um narrador, Paulo, com a incumbência e o privilégio de ordenar os fatos, comentá-los e tirar-lhes conclusões. À medida que transmite os fatos, vai fornecendo ao leitor elementos para análise de Lúcia e dele mesmo.


O romance conta com todos os ingredientes de um romance romântico: heróis e vilões, heroínas incompreendidas, virgens pálidas e meigas e cortesãs depravadas, além da morte como a única saída para um amor verdadeiro, porém, impossível.
Numa leitura atenta, o leitor percebe no livro que a época retratada é o Rio de Janeiro do período de D. Pedro II, com seus salões e sua burguesia. Há referências de seus bairros, ruas, população, festas e teatros. Como o próprio narrador anuncia: "A primeira vez que vim ao Rio de Janeiro foi em 1855".
O tempo narrativo é iminentemente cronológico. Os acontecimentos se sucedem numa ordem quase normal - horas, dias, meses e anos. No entanto, há um momento em que o fluxo narrativo retroage: quando Lúcia narra a Paulo seu passado, e em dois momentos ele avança, revelando o estado de alma de Paulo seis anos após a morte de Lúcia.
Lucíola é classificado dentro dos romances de "perfis femininos" de José de Alencar, autor cuja obra abrange os grandes temas de nossa literatura romântica, incorporando todos os aspectos da realidade brasileira de seu tempo, como podem ser observados no romance.
por Hamilton Freitas

A Língua Portuguesa testa a sua popularidade


O português é uma língua falada por cerca de 190 milhões de pessoas em todo o mundo espalhadas pelos continentes americano, europeu, africano e asiático. Na América, o Brasil é o único país de língua portuguesa, que é a sétima língua falada no mundo, superada pelo chinês, o inglês, o espanhol, o hindi, o russo e o árabe.

No Brasil, a língua portuguesa foi bastante influenciada pelas línguas indígenas, africanas e de imigrantes europeus que se instalaram no Centro-Sul. Isso explica a presença de falares regionais tão distintos, como o do nordestino, o do mineiro e o do gaúcho, além das variações superficiais no vocabulário. Apesar dessas diferenças, a língua portuguesa no Brasil conserva a sua uniformidade em todo o território.


"A unidade lingüística brasileira não é surpreendente, se se observar que na América de fala espanhola ocorreu o mesmo. A colonização trouxe a cultura e a língua da Península Ibérica, e ambas aqui se mesclaram com as culturas e línguas ameríndias e africanas. A presença não ibérica no território brasileiro na época colonial foi sempre minoritária e de curta duração, não ameaçando a homogeneidade lingüística do português ou de um possível crioulo que teria surgido pela interpenetração dessas línguas. Não é casual que, dentre todos os povos que falam português no mundo, o brasileiro seja o único que desenvolveu pronúncia e uma sintaxe com aspectos que diferenciam nossa fala das demais, todas moldadas fortemente no português europeu", comenta o professor Attila Louzada, doutor em Lingüística (UFRJ) e professor do Departamento de Letras e Artes (DLA), da Furg.


Origem e história - O português é uma língua derivada do latim vulgar (popular), que se desenvolveu na região da Lusitânia (atual Portugal e região espanhola da Galícia) a partir do século III a.C., época em que o Império Romano conquistou a região e instituiu o latim como língua oficial, o que, na interação com a língua local, deu início ao processo de formação do português. Posteriormente, o português sofre influência de outros povos que invadem a Península Ibérica: os bárbaros no século V, e os árabes, no século VIII.


A expulsão dos árabes no século XII, leva à criação do reino independente de Portugal. Coube então, a D. Diniz, rei de Portugal, proclamar o português, em 1279, como a língua oficial do país, abolindo o latim dos textos jurídicos e sociais. Porém, somente a partir do século XIV é que se pode falar na existência de uma língua portuguesa com características próprias. No mesmo século, surgiu a prosa literária em português. O livro que registrou primeiro essa língua foi o "Livro de Linhagens", de D. Pedro, rei de Portugal. Mas a primeira gramática portuguesa só surgiria em 1546, escrita por Fernão de Oliveira. Com a expansão marítima portuguesa, entre os séculos XV e XVI, o idioma se espalhou por várias regiões da África, Ásia e América e recebeu influências locais.


Preocupação com o idioma - As inúmeras de páginas na Internet e a presença de colunas sobre a língua portuguesa nos principais jornais do País, mostram que o interesse pelo idioma português vem crescendo. "O interesse pela Língua Portuguesa que se observa pelo número e popularidade de programas de rádio e tv, colunas em jornais e revistas e sites na internet a esse respeito evidencia uma saudável preocupação da comunidade lingüística com seu idioma. O usuário médio da língua precisa conhecer melhor a norma padrão, pois isso lhe será muito útil quando tiver de vivenciar situações formais, em que seu comportamento estará sendo julgando também pela maneira como usa a língua", afirma o professor Átilla Louzada. Mas alerta: "é preciso cuidado para não desdenhar injustificadamente outras variedades empregadas pela comunidade em situações menos formais, ou mesmo no interior de grupos sociais bem delimitados. Alguns responsáveis por essas colunas exageram na postura purista e por vezes, esquecendo que as línguas, o português inclusive, percorrem caminhos sem fim e nunca atingirão um estado final, quando não mais haveria formas diferentes de se dizer a mesma coisa, nem empréstimos de outras línguas. Uma outra preocupação que se deve deixar de lado é isso de os portugueses falarem o português correto e nós, o errado. Isso é tão mais absurdo quando se observa que, para os eles, nós não falamos português, mas brasileiro", finaliza Louzada.
Por Hamilton Freitas

Onde se fala português

O português é a lingua oficial de vários países. Chama-se língua oficial aquela utilizada na administração, no ensino, na imprensa e nas relações internacionais. Em outras regiões, o português não é a língua oficial: é falado por uma parcela da população, resumindo-se a um dialeto.


Confira o quadro


América - Brasil língua oficial


África - Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe língua oficial


Ásia - Macau, Goa, Damão e Timor Leste não oficial


Europa - Portugal oficial

A origem e a história da Língua Portuguesa

A Península Ibérica, onde ficam Portugal e Espanha, separada do resto da Europa pela cadeia dos Pirineus, estende-se em direção ao oceano Atlântico formando a parte mais ocidental da Europa. Por cerca de 10 mil anos, a região teve um importante papel no encontro de vários povos. Dessa forma, o povo português resultou de um antigo e demorado processo de miscigenação e de constantes aculturações. Entretanto, as várias culturas existentes na península foram reduzidas a um denominador comum a partir do domínio romano e de sua imposição cultural.
O latim, língua falada originalmente pelos latinos, um povo que habitava o Lácio (na região central da Itália) era a língua dos conquistadores que, ao longo dos séculos, foram dominando as cidades mais importantes da região e depois espalhando os seus domínios pela Europa, Ásia e África. A presença romana na Península Ibérica tem início em 219 a.C por questões estratégicas. Os romanos lá procuravam expulsar os cartigineses que tentavam chegar a Roma. Derrotados os cartagineses, os romanos dominaram a península impondo a sua cultura e sua língua. Esse período é conhecido como romanização da Península Ibérica.
A língua latina apresentava dois níveis: o latim literário (falado e escrito, empregado em textos literários, filosóficos e jurídicos) e o latim vulgar ou popular (língua apenas falada, utilizada pela massa da população, analfabeta na sua maioria. O latim vulgar era a língua utilizada por soldados, comerciantes e pela maioria das pessoas que se dirigiam aos territórios conquistados com a finalidade de colonizá-los. Esse latim se impôs aos povos vencidos.


A fragmentação do latim

Já no século I da era cristã, o latim era a língua comum a todos os povos da península, exceto na região onde se falava - e se fala até hoje - o basco. A mistura do latim com as línguas locais começou a provocar diferenciações da língua em cada região. Este é um dos fatores que explicam a fragmentação do latim, dando origem a línguas parecidas umas com as outras, mas diferentes entre si.
Entretanto não se pode desprezar a influência exercida pelas diversas línguas faladas na região antes do domínio romano sobre o latim vulgar. Assim é que o latim vai passando por uma fase de transição, modificado pelos falares regionais, dando origem a vários dialetos, que receberam a denominação genérica de romanço (do latim romanice, que significa "falar à maneira dos romanos". Assim, a língua falada em todo o império romano deu origem às línguas românicas ou neolatinas: italiano, provençal, francês, galego, romeno, espanhol e português.

Invasões

No século V, com as invasões bárbaras e a queda o Império Romano no Ocidente, intensifica-se o aparecimento desses vários dialetos. A presença dos invasores árabes na península, a partir do século VIII, dá continuidade ao longo processo evolutivo, contribuindo para a formação das línguas faladas na região. No caso particular da Península Ibérica várias línguas e dialetos se formaram, entre eles o catalão, castelhano e o galego-português - desse último, resulta a língua portuguesa.
O galego-português era um falar geograficamente limitado a toda a faixa ocidental da península, a Lusitânia, que corresponde aos atuais territórios da Galiza, que faz parte da Espanha, e de Portugal.A expulsão dos árabes no século XII, leva à criação do reino independente de Portugal. Coube então, a D. Diniz, rei de Portugal, proclamar o português, em 1279, como a língua oficial do país, abolindo o latim dos textos jurídicos e sociais. Porém, somente a partir do século XIV é que se pode falar na existência de uma língua portuguesa com características próprias. No mesmo século, surgiu a prosa literária em português. O livro que registrou primeiro essa língua foi o "Livro de Linhagens", de D. Pedro, rei de Portugal. Mas a primeira gramática portuguesa só surgiria em 1546, escrita por Fernão de Oliveira. Com a expansão marítima portuguesa, entre os séculos XV e XVI, o idioma se espalhou por várias regiões e recebeu influências locais.
por Hamilton Freitas