Lançado em 1935,
Os Ratos, do gaúcho Dyonélio Machado, traça a trajetória de um dia na vida de Naziazeno Barbosa, um funcionário público que, numa certa manhã, vê-se diante de um problema: não possui dinheiro para pagar o leiteiro, estando ameaçado de perder o fornecimento. Perante a possibilidade de retirar de seu filho pequeno este alimento, resolve sair em busca do dinheiro para pagar a dívida.
O relato começa com a discussão com o leiteiro, que lhe dá mais um dia para pagar a conta do leite, e dura 24 horas, sendo concluída na manhã do dia seguinte. O protagonista sai para o serviço, toma o bonde, mas ao descer, impaciente, vai para o café da esquina, onde pretende encontrar o seu amigo Duque. Pensa em ir a repartição falar com o diretor e pedir 60 mil réis, mas se lembra que ele já havia lhe emprestado 20 mil réis durante a doença de seu filho.
Às 9h, vai até a repartição e tenta começar a trabalhar. O trabalho de Naziazeno é monótono: copiar faturas num livro grande, o qual estava atrasado em mais ou menos dez meses. Só que naquele dia ele não tinha cabeça para trabalhar, tenta falar com o diretor, mas não consegue e seu plano começa a ficar abalado. Pensa novamente no Duque, que há de orientá-lo, sugerindo se Naziazeno não tem nada para empenhar.
Retorna ao café, não encontra o Duque, mas encontra Alcides, que sugere saírem para tentar encontrar o Duque pelos cafés do centro. A manhã estava quase perdida, só lhe restava pedir ajuda ao diretor. Alcides convida Naziazeno para jogar no bicho. Na repartição, o diretor lhe diz que não tem nenhuma fábrica de dinheiro e frustra suas expectativas.
Na seqüência dos fatos, é mostrada a incapacidade de Naziazeno para decidir as coisas. Ele pensa em almoçar no restaurante dos operários e pedir dinheiro para o almoço para o dr. Otávio Conti. Encontra o amigo Costa Miranda, a quem pede 10 e recebe 5 mil réis. Fica indeciso e não sabe se almoça ou vai ao mercado conversar com amigos. Acaba indo jogar numa roleta clandestina. Com fome, pensa em filar um café, mas não consegue e toma um copo de água. Acerta no número 28 e ganha 175 mil réis. Continua apostando e perde tudo. Depois descobre que perdeu no bicho também.
Novamente no café, Naziazeno, Alcides e Duque tentam de várias maneiras encontrar soluções para o problema. Recorrem a várias pessoas sempre sem sucesso. Duque lembra que Alcides tem um anel empenhado por 180 mil réis e traça um plano para melhorar o penhor: era necessário resgatar o anel e empenhá-lo em outra parte. Para isso é necessária a ajuda do dr. Mondina, que aceita emprestar o dinheiro para a retirada do anel. Vão para a casa de penhores, mas já são 18h, e ela já se encontra fechada. Alcides convence o proprietário a atendê-los e acaba resgatando o anel. Tentam empenhar o anel novamente em uma joalheria, mas não conseguem. Já são 20h, e o dr. Mondina acaba emprestando o dinheiro. Duque se compromete em fazer o penhor no outro dia. Mondina fica com o anel em garantia do dinheiro.
Naziazeno chega em casa às 21h, trazendo do conserto um sapato de sua mulher Adelaide, manteiga, um pedaço de queijo e dois leõezinhos de borracha para o filho, que já estava dormindo. Deita-se exausto, depois de comer alguma coisa, mas antes coloca o dinheiro junto à panela do leite, em cima da mesa. Passa a noite a se revirar na cama. Quase pela manhã, entorpecido pelo sono, imagina que ratos estão roendo o dinheiro que deixara para o leiteiro. Convencido que perdera o dinheiro, volta à realidade ao ouvir o barulho do leite sendo despejado na leiteira e os passos do leiteiro, que se afastava, fechando o portão. Naziazeno então dorme.
Literatura de caráter social - Temos em Os Ratos uma narrativa, em terceira pessoa, de episódios cronometrados, passados na Porto Alegre dos anos 30, com o espaço diversificado (mercado, centro bibliotecas e praças). O fluxo da narrativa acompanha o modelo convencional de relato: o conflito central motiva à ação do protagonista.
O desenvolvimento da intriga culmina no sucesso da busca pelo dinheiro e a dissolução do conflito. Esta configuração, todavia, é aparente. É o que confere originalidade ao relato de Dyonelio Machado. Na verdade, o conflito não inicia quando ocorre a ameaça do leiteiro.
Uma boa leitura permite que o leitor fique informado de tantas outras dívidas da personagem e que o drama não acaba com o pagamento da conta. Naziazeno deve a mais alguns e nada indica que no próximo mês não venha a ser cobrado novamente pelo leiteiro ou outro vendedor.
As 24 horas narradas representam todo e qualquer dia de um trabalhador que não consegue sobreviver com seu modesto salário, além de evidenciar o angustiante percurso vivido, pois se todos os dias são assim, a existência converte-se num estafante, interminável e improdutivo exercício destinado ao pagamento de dívidas, oriundas de uma irremediável falta de dinheiro.
O romance, dividido em 28 capítulos e escrito em 20 noites seguidas, foi festajeado logo após o seu lançamento, em 1935, sobretudo pela mensagem de reivindicação social que contém. Apontaram-no como um retrato vivo da proletalização, já então progressiva, da classe média brasileira.
O autor - Dyonélio Machado nasceu em 28 de agosto de 1895, em Quarai (RS). Diplomou-se em 1929 pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre, especializando-se em Psiquiatria. Dedicou-se também ao jornalismo, como redator e, posteriormente, diretor interino do Correio do Povo, de Porto Alegre.
Exerceu mandato de deputado no Rio Grande do Sulk, antes da implantação do Estado Novo. Dionélio alcançou notoriedade com
Os Ratos, publicado em 1935, no Rio de Janeiro, logo após ter sido premiado, juntamente com obras de Érico Veríssimo, Marques Rabelo e João Alphonsus, em concurso em nível nacional.
por Hamilton Freitas
Outras obras
Conto: Um Pobre Homem (1927)
Romance: O Louco do Cati (1942); Desolação (1944); Passos Perdidos; Os Deuses Econômicos (1966)
BIOGRAFIA DO AUTOR