Língua & Literatura

O blog Língua & Literatura foi criado para a disciplina Projetos Experimentais como requisito parcial para a obtenção de grau em bacharel em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, pela Escola de Comunicação Social (Ecos) da Universidade Católica de Pelotas (UCPel). O objetivo é publicar resumos, análises e sínteses literárias, além de estudos de filologia e lingüística como forma de colaboração e apoio às pesquisas escolares e acadêmicas.

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domingo, maio 28, 2006

As Horas Nuas - Lygia Fagundes Telles


As Horas Nuas (1989) pode ser considerado uma síntese de antigos trabalhos de Lygia Fagundes Telles (1921), pois demonstra que todos os elementos ficcionais da obra têm raízes em textos anteriores da autora, que se juntam através de um jogo narrativo complexo e inteiramente novo, que pode, todavia, ser facilmente desvendado por quem domina o seu universo ficcional. A autora apresenta a protagonista Rosa Ambrósio, revelando seus pensamentos e emoções íntimas. O título refere-se a um livro de memórias que supostamente Rosa está escrevendo e ao qual, constantemente, faz alusões. Rosa é descrita como uma atriz envelhecida, decadente, só e melancólica, uma vez que foi famosa (embora medíocre) e muito linda. Rosa Ambrósio é revelada como uma mãe egoísta, dona-de-casa descuidada e uma alcoólatra que atravessa a linha que separa a loucura da lucidez, sofrendo da psicose maníaco depressiva.


Incapaz de enfrentar a velhice e o abandono, torná-se alcoólatra e passa a ser assombrada pela memória daqueles que considera os homens mais importantes de sua vida: Gregório, seu marido falecido; Diogo, seu secretário e amante que a abandonou; Miguel seu amante adolescente.Um dos aspectos mais importantes dentro da história é a narrativa, que é feita sob três perspectivas diferentes. A primeira, que prevalece durante todo o romance, é a da própria Rosa, que em primeira pessoa, enfatiza suas reminiscências. A segunda voz é filtrada através do gato de Rosa, Rahul, que se descreve como um gato castrado, sem raça e com memória. Rahul narra também em primeira pessoa, agindo como testemunha de tudo que acontece com Rosa, revelando seus problemas e suas tristezas mais profundas. A terceira voz narrativa é apresentada através de um narrador impessoal, em terceira pessoa, usando o discurso direto livre, que revela detalhes sobre a vida, os sentimentos e os pensamentos de Ananta Medrado, psicanalista de Rosa de idéias feministas que desaparece misteriosamente. Depois do desaparecimento de Ananta, esse narrador focaliza Renato Medrado, primo da psicanalista, que tenta resolver o misterioso caso.


Memórias e vidas passadas


Em suas memórias, Rosa deixa transparecer seu desejo de conseguir a juventude eterna e a imortalidade. Esta idéia é enfatizada pela autora. A tentativa de Rosa escrever suas memórias está relacionada à sua natureza narcisistas e ao seu desejo de escapar da velhice e da morte. Ocasionalmente, Rahul comenta sobre suas vidas passadas, inclusive como ser humano, e questiona sua existência.


O gato pode ser visto como um espelho de Rosa, pois há muitas similaridades entre os dois: ambos são egoístas, olham suas memórias com sentimentos nostálgicos e dolorosos. Rosa e Rahul aparecem incluídos em um único ambiente, confinados num apartamento, incapazes de enfrentar o mundo externo. Assim como Rahul, castrado por Rosa quando ainda era um gatinho, a ex-atriz também se encontra privada da vida sexual.Durante todo o romance, Rosa é descrita como uma mulher que personifica claramente os valores patriarcais. Em seus comentários sobre mulheres, percebem-se todos os pressupostos patriarcais sobre a superioridade masculina: "Engravidei tão feliz, sonhando com um menino que ia se chamar Miguel. Comecei a chorar tanto quando me disseram que era menina, você sabe, homem sofre menos. Apanha menos. Na rua, na cama, em qualquer lugar é ele o agressor. Sem falar no parto, sabe-se lá o que é um parto?", comenta Rosa sobre sua filha Cordélia, cujo pai é Gregório. Seu desagrado das mulheres reflete também a idéia de que, de certa maneira, não gosta dela mesma, nem é feliz como uma mulher.Uma leitura atenta do livro mostra que o processo narrativo preocupa-se muito mais com a análise das personagens do que com a ação. Os fatos narrados são ligados entre si por reflexões profundas. A narrativa, por tratar-se de memórias, é cheia de digressões. Ao espaço exterior é dada importância secundária, já que a narrativa concentra-se, principalmente, no espaço mental das personagens.

Desde de Ciranda de Pedra (1954), seu primeiro livro, Lygia Fagundes Telles, desenvolve sua técnica e seu estilo, encaminhando, gradualmente, seus trabalhos para o pós-moderno. Vem concentrando-se também, profundamente, nos problemas das mulheres centro da sociedade patriarcal brasileira. Em As Horas Nuas, Lygia dá ênfase especial à consciência das mulheres sobre sua situação e da força e habilidade que necessitam para buscar mudanças com relação à condição do sexo feminino.

As Horas Nuas pode ser considerado uma síntese de antigos trabalhos de Lygia Fagundes Telles, pois demonstra que todos os elementos ficcionais da obra têm raízes em textos anteriores da autora, que se juntam através de um jogo narrativo complexo e inteiramente novo, que pode, todavia, ser facilmente desvendado por quem domina o seu universo ficcional.

por Hamilton Freitas


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